Centro Cultural Dannemann - São Félix - Bahia - Brasil
Projeto apresentado na abertura do 19º Encontro da ANPAP
Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas
20 de setembro a 05 de outubro de 2010
Ossain que protege as florestas
Estamos na região do Recôncavo da Bahia, onde foram realizados os ciclos do fumo e da cana-de-açúcar, os mais duradouros da economia colonial portuguesa, sustentados pelo trabalho escravo que aqui permaneceu por muito mais tempo do que em qualquer outro lugar do Brasil e, inscreveu com sofrimento e ternura sua história, religiosa e cultural.
Nesta edificação que abriga o Centro Cultural Dannemann funcionou a primeira grande fábrica de charutos para exportação do Brasil, inaugurada em 1873. Atualmente, restaurado realizamos exposições periódicas, oficinas, seminários, cursos, além do Festival de Filarmônicas e a Bienal do Recôncavo, agora na sua décima edição prevista para 27 de novembro.
Acolher o coletivo "Entre Folhas" da ANPAP 2010 é para o Centro Cultural Dannemann uma satisfação e uma significativa oportunidade de contribuirmos para o desenvolvimento da pesquisa e da criação artística, incentivando a elaboração do conhecimento critico e da construção de poéticas contemporâneas na região do recôncavo.
Ao eleger a folha de fumo como tema, material ou suporte para o coletivo "Entre Folhas" a ANPAP articula um dialogo visceral e profundo com a malha da ancestralidade cultural do recôncavo.
O fumo dessa região foi durante muitos anos a principal mercadoria de troca por escravos no Daomé. E a folha de fumo é a preferida de Ossain. Todas as folhas pertencem a Ossain, mas o fumo é especialmente a do reino deste orixá das matas. Assim, Ossain que protege as florestas, proteja o 19ª encontro da ANPAP e o Coletivo Entre Folhas.
Ewé ô Ossae*
Pedro Archanjo
Diretor do Centro Cultural Dannemann
*Saudação em yorubá á Ossain utilizada no candomblé de Keto no recôncavo baiano.
A ANPAP "entre" folhas, folhas e folhas
A imagem da água marca o 19º Encontro da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas – que tem como tema "Entre Territórios". A água como elemento fluido e transparente, que promove um curso provido de margens distintas e permite visualizar a conjugação do passado e do presente, da chegada e a partida de inúmeros grupos étnicos. A figura central do Paraguaçu cruza assim o imaginário deste Evento que tem como meta principal congregar a pesquisa em artes visuais, mostrada por investigadores procedentes de diversas regiões do Brasil e também de outros países, cuja presença vem sendo confirmada nas mais recentes realizações da ANPAP, que teve sua gênese em 1987.
Nesta oportunidade, apresenta-se neste Centro o coletivo "Entre Folhas", promovendo-se a integração de pesquisadores de distintos Comitês. As diversas origens sinalizam pluralidades, e fornecem pontos de deslocamentos ou entrelaçamentos, podendo exigir reflexões intermediárias: "entre". Na concepção de Milton Santos, estes diferentes ritmos territoriais caracterizam-se por singularidades espaciais, as que por sua vez são resultantes de um tempo histórico e de um tempo de coexistências.
Este território de trocas se instaura nas linguagens artísticas contemporâneas, cuja natureza vem se mostrando como um entre lugares, propicio às trocas internas e externas. Nesse processo ressignificam-se repertórios, revitaliza-se o fazer artístico, em suas possíveis dimensões sejam elas tangíveis ou intangíveis, tendo o imanente como condição. É na base territorial que tudo acontece, mesmo as configurações e reconfigurações mundiais.
É aqui, neste território primaveril do Recôncavo baiano, "entre" folhas, folhas e folhas, que recebemos todos vocês para inaugurarmos o 19º Encontro da ANPAP, agradecendo a parceria do Centro Cultural Dannemann e especialmente o apoio de Hans Leusen, Pedro Arcanjo, Ayrson Heráclito, Eriel Araujo, dos monitores e de todos os pesquisadores que abraçaram este projeto.
21 de setembro de 2010 Maria Virginia Gordilho Martins (VigaGordilho)
Presidente da ANPAP
Maria Herminia Olivera Hernández
Vice-Presidente
"Entre Folhas"
Um grande prazer e muito Axé marcam o acolhimento do 19° Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas no Recôncavo. Impossível deixar de ressaltar uma questão relativa à ocupação do evento nesse território: a cidade de Cachoeira foi, na geopolítica da escravidão moderna, um importante entreposto nas trocas e intercâmbios ligados ao tráfico negreiro. Salienta-se que, no século XIX, após a proibição legal do tráfico negreiro, Cachoeira passou a ser um dos portos mais dinâmicos do comércio clandestino de escravos no Brasil.
No massapé do Recôncavo baiano, a cana-de-açúcar encontrou o seu habitat mais que perfeito.
O fumo e a aguardente – importantes moedas de troca no comércio com a África, principalmente relacionados ao comércio de escravos – também floresceram e prosperaram nos solos do Recôncavo.
Tais questões suscitaram uma concentração elevada de descendentes de africanos naquela região, dando às dinâmicas culturais do território características peculiares.
A proposição de tal mostra está intimamente ligada a este contexto e suas articulações históricas. Não é por acaso que folhas de fumo foram escolhidas para evocar uma troca criativa entre artistas/pesquisadores. O fumo como um produto de migrações indígenas e utilizado como elemento mítico e medicinal; para os negros como um dos caminhos de entrada para o cativeiro e para os brancos como estratégia de desenvolvimento de um complexo econômico agroindustrial. Agora transfigurado pela arte.
O conceito da mostra "Entre folhas" celebra e remete a "espaços intermediários, entre-lugar contingente, que inova e interrompe a atuação do presente" (BHABHA, 1998).
Importante ressaltar a iniciativa do projeto coletivo onde as obras apresentadas demonstram uma diversidade criativa e uma pulsante vitalidade em relação ao material e suas operações. Sentidos e contextos organizam olhares, ativam pensamentos e transmutam estados de mundos.
Ayrson Heráclito
Artista / pesquisador, curador e prof. da UFRB
Ficha Técnica Coletivo "Entre Folhas"
Diretor do Centro Cultural Dannemann : Pedro Archanjo
Concepção e Coordenação Geral : VigaGordilho
Projeto Expográfico : Eriel Araújo
Apoio Expográfico : Nicole Avillez
Curadoria : Ayrson Heráclito
Apoio Local : Ana Fraga
Documentação Fotográfica : Laís Andrade
Criação : Laís Andrade e Nicole Avillez
Design Gráfico : Laís Andrade
Montagem : Roberto Feitoza e equipe
Making Off : Florian Boccia